Friday, December 16, 2011

I. Stanislávski e a burocracia teatral.

Vou começar deitando meu ódio à burocracia e a todos os que se utilizam dos papeis para reproduzir tosca e pequenamente a dominação do homem pelo homem, que deve ser extirpada o mais rápido possível da sociedade. Incrivelmente hoje, pensando sobre isso, abri ao acaso uma edição nova que saiu aqui em Moscou sobre a "Arte da dierção no século XX", organizada pelo Serguei Zhenovach (diretor artístico do teatro "Escola de Arte Teatral"). Abri sem querer num dos capítulos mais censurados em Stanislávski: Ética e disciplina (o livro contém textos raros de Stanislávski, Meyerhold, Giorgio Strehler, Jerzy Grotówski e Peter Brook). Traduzo:

"Um fenômeno típico da vida teatral é o antagonismo entre a parte artística e a parte administrativa, entre o palco e o escritório. Nos tempos do czar, foi o que destruiu o teatro. A "Administração dos Teatros Imperiais" ficou conhecida como a "persona non grata" que expressava da melhor maneira a burocracia atrasada, a rotina e etc...
<...>
Está claro que o escritório deveria ser posto no seu devido lugar no teatro. (...) Este lugar é o lugar de um serviçal, já que não é o escritório, mas o palco que dá vida à arte e ao teatro. Não é o escritório, mas o palco que atrai o público e traz a popularidade e a fama. Não o escritório, é o palco que cria a arte. (...)
Mas tentem dizer isso a qualquer administrador de teatro, diretor técnico, a qualquer um dos burocratas. Ficarão vermelhos diante de tal heresia, de tão profundamente que já se enraizou em suas mentes que o sucesso do teatro está neles, em sua administração. São eles que decidem pagar ou não pagar, montar tal ou qual peça, aprovam ou desaprovam os orçamentos, determinam os cachês, cobram as multas, são eles que recebem as pessoas, em seus escritórios se entregam os projetos, em seus escritórios luxuosos, com seus muitos funcionários que consomem muitas vezes a maior parte do orçamento do teatro. São eles que ficam contentes ou irritados com o sucesso ou fracasso de um espetáculo, dos atores. São eles que controlam os convites. É para eles que o ator deve pedir humildemente para que deixe entrar de graça uma pessoa que lhe é cara. São eles que negam ao ator um convite em benefício de algum amigo ou conhecido. São eles que andam para lá e para cá pelo teatro e recebem os cumprimentos humildes dos artistas. São eles que representam, no teatro, um grande mal, opressor e destruidor da arte. Não possuo nem palavras o suficiente para derramar toda a minha raiva e ódio deste tipo de gente de escritório, tipos tão comuns em todos os teatros, audaciosos opressores do trabalho artístico."

O texto original está em: STANISLÁVSKI, K. O trabalho do ator sobre si mesmo no processo artístico da corporificação, na edição "A arte da direção no século XX", org. S. Zhenovach, ed. Artist. Rezhisser. Teatr. - Moscou 2008.
(СТАНИСЛАВСКИЙ, К.С. Работа актера над собой в творческом процессе воплощения, в "Искуссво Режиссуры ХХго века" орг. С. Женовач, изд. Артист. Режиссер. Театр - Москва 2008.

No comments:

Post a Comment