Vocês sabem que o cerne da questão não está na ação física, mas nas condições, circunstâncias propostas e sentimentos que a geram. O importante não é que o herói da tragédia se mate; importante é o motivo interior que o leva a fazê-lo. Se tal motivo não existe ou é desinteressante, a própria morte não conseguirá causar impressão alguma. Entre a ação cênica e o motivo que a gera existe uma ligação inseparável. Em outras palavras, entre "a vida do corpo humano" e a "vida do espírito humano" existe a unidade completa. Como vocês sabem, isso é o que invariavelmente usamos para a nossa psicotécnica. O mesmo fazemos agora [ou seja, na nova etapa, a do trabalho sobre as ações físicas --D.M.].
Com ajuda ajuda da natureza, do subconsciente, do instinto, da intuição, do hábito etc., trazemos à tona uma série de ações físicas, todas atreladas umas às outras. Através dessas ações físicas tentamos conhecer os motivos internos que as conceberam, os momentos específicos da experiência do vivo, da lógica e da sequência de sentimentos nas circunstâncias propostas da vida do papel. Tomando conhecimento desta linha, passamos a conhecer também o sentido interno das ações físicas. Esse conhecimento ainda não é de origem racional, mas sim emocional, o que é muito importante, já que faz com que conheçamos uma pequena parte da psicologia do papel a partir de nossas próprias sensações. Mas é impossível interpretar apenas a psicologia do papel ou apenas a lógica e a sequência das emoções. Por isso, recorremos à linha das ações físicas, muito mais estável e acessível, observando sua lógica e sequência rígidas. Em função do fato de que esta linha está inseparavelmente ligada à outra, à linha interna das emoções, somos capazes de excitar as emoções através da ação. A linha da ação física lógica e ordenada é o que entra para a partitura do papel.
[in: STANISLÁVSKI, K.S, O trabalho do ator sobre o papel, ed, Iskússtvo, Moscou, 1957]
[traduzido por Diego Moschkovich]